quinta-feira, 6 de março de 2014

O amor

Ama o corpo e odeia os hábitos. Não fume. Não cante fora do tom. Não tome tanto sorvete. Devolva meu coração, mas seja feliz comigo. Sorria mais. Fale menos. Veja menos futebol e mais cinema. Não tome tanto sol. Faça ginástica. Devolve a chave da minha casa. Sonhe mais. As coisas não são assim, mas seja feliz comigo. Coloca o cinto de segurança. Salgue menos a comida que adoço mais a bebida. Azul fica bem em você. Leia mais. Liga o ar condicionado no máximo. Desligue a lâmpada da varanda. Bata o portão. Fecha a janela. Tira a minha roupa e seja feliz comigo. Lave a louça de ontem. Não esqueça meu aniversário. Coloque aquela música. Desligue o televisor. Beba. Me coma. Deixe eu beijá-lo. Não fale com estranhos. Não com os outros. Apenas comigo. Sempre. Seja feliz comigo.
(by, franck)

Tsuru

Carrego na mochila o tsuru de papel que ela fez pra mim. Um origami amuleto. Lembrança. Âncora. A fragilidade oriental como proteção.
(by, franck)

Uma carta para S.

Querida S.,

Sua carta chegou numa manhã de um domingo nublado. Na casa de paredes amarelo-damasco (vi numa revista de decoração e mandei reproduzir a cor), uma música vibrava do rádio ligado (ouço muito rádio) e o aroma de café e cuscuz de milho exalava. .. Enquanto tomava café e relia sua carta, pensava no que você disse: 'a vida é pouco, escorregadia', por isso, não poderia deixar de respondê-la ainda este ano, hoje, agora, deixando para depois as louças sujas do café da manhã e desligando o rádio e colocando uma Nina Simone. Será que ouves Nina nessa manhã? (Aliás, não sei se ainda é manhã aí).

Não lembro também quando conversamos pela última vez, mas não deixei de saber de você: seu humor, sua poesia, seus dias e noites... No meio do furacão de tudo isso, das nossas vidas, também nossas risadas. Nossas asas. A vida além de pouco e escorregadia também são essas pausas. Mas quero dizer-lhe que continuo acreditando no amor e na poesia, mesmo que eles morram, e, esse ano não deixou de ser uma variação sobre o mesmo tema. Um buraco negro. Todos que amei (ou achei que) eram sempre meio peso-pluma ao passo que eu assumo as pessoas, tenho vítimas que poderiam provar, torturadas e estropiadas, mas assumidas. Por isso as cartas e os poemas e os bilhetes de amor. Por isso os incensos e os lençóis novos na cama e as bebidas e os cigarros e algumas trilhas sonoras. Mas acho que essa busca se tornou finita, agora meu coração é fogo de artificio por dentro, infinitas incógnitas com H, pois para ele empinei meu coração junto com todas as pipas coloridas dessa cidade. Com ele bebemos goles de mar. Não sou mais igual a antes, com uma vida secreta e sombria e perigosa, cheia de encontros românticos desvairados. Agora somos fosforescentes e brilhantes, brilhantes como os lençóis maranhenses, como as dunas de Natal...

Que nos venham os cavalos que você disse que representará o próximo ano, animais da minha infância, mas não se ainda sei cavalgar, isso faz tanto tempo, a infância. Coelho que sou no horóscopo chinês, talvez use a impulsividade que rege esse signo e tentarei me equilibrar nos dorsos dos cavalos que por mim passarem, mesmo sendo de uma timidez extrema, mesmo não sendo dotado de muita energia.

Se o que importa é o coração, vou ouvi-lo, por isso, em janeiro (nos primeiros dias) viajarei pelo nordeste brasileiro e descobrirei outros tons de azuis no céu, escreverei poemas de amor, farei piqueniques com frutas de metal enferrujadas, porque a maresia comeu tudo... Quem sabe, S., não a terei em solo maranhense em 2014? Tomaremos café com cuscuz de milho enquanto Nina Simone cantará embalando esse encontro?

Com carinho e muita paz, sempre,
F.

Paisagem

Na manhã, pipas ensaiam asas e a moça na janela espera notícias trazidas pelo vento. A tarde o visitante contempla o painel de conchas acima do sofá, enquanto as gaivotas cantam canções de pedra, para retinas sem paisagem. Minhas mãos choram lamentos de lavadeiras, mas ouço o barulho do mar em búzios. Anoitece e um garoto de patins desce a ladeira, na varanda uma velha tem voos rasantes de memória. .. Mas olhamos para nenhum crepúsculo! 
(By, Franck)

Vício

TEU VÍCIO
COSEU NOSSO AVESSO
NUM ISTMO
NAVERRANTE
ENTRE
FERIDA E CICATRIZ.
(by, franck)

Sobrevivente

Sobrevivi a solidão da infância. Ao bullying. A adolescência. A latitude. A altitude. Ao medo de avião.
Sobrevivi as provas. Ao despertador. Ao frio. Ao calor. Aos porres e esporros. Aos gritos do primeiro chefe. As primeiras paixões. As separações. Aos amigos que sumiram e aos que morreram.
Sobrevivi as mudanças de endereço. Ao cheque especial. As doenças. As cartas de amor. A Caio Fernando Abreu.... Ao coração partido. As dores musculares. De cotovelo. As despedidas. As noites insones.
Sobrevivi a miopia. Aos anseios. As alegrias. As drogas. Aos antidepressivos. A poesia. As terapias. A Maria Bethânia e Nina Simone.
Sobrevivi as esperas. Ao tesão. A sessão coruja. Ao mar. A montanha. As veredas. Ao caos urbano. Aos acidentes de carro. Aos enganos e desenganos. As perdas. Aos ganhos. Aos encontros e desencontros. Aos aniversários. Aos cabelos grisalhos.
Eu sou um sobrevivente...

Felicidade?

Felicidade? 
É um pastel de goiabada e queijo
Comido numa caminhada
Por ruas vazias
Numa noite meio fresca, meio fria. 
(by, franck )

(Quem dá a volta ao zodíaco comigo...)

EU...

Minha foto
São Luís, MA, Brazil
Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...