segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quando dezembro chegar!


Você disse-me que voltaria num dezembro, espero-a capatultando avenidas, olhando dentro dos olhos dos peixes e grávida de estrelas. Estarei no jardim reiventando asas para o sol e escrevendo poemas e dando aulas e dirigindo carro e lendo Homero e Pessoa e Adélia e cartas reencontradas em gavetas e baús. Traga seus mapas e dores e bússolas e as coisas recolhidas pelo caminho nesta sua volta como aquela placenta, guirlanda, crepons, serpentinas, guelras e conchas. Me encontrarás camuflado, neste dezembro, cheirando a mirra, pintando aquarelas e fazendo preces ajoelhado e consultando oráculo e orando pela felicidade do mundo e transformando orvalho em anêmona e anêmona em girassol para enfeitar sua chegada. Que venhas chorando em tardes de chuva, se dezembro for, que ainda pertença a templos e seja a alquimista de outrora que da ágata faça nave e da nave faça borboletas e das borboletas faça orvalho, para que eu transforme em anêmona. A abrigarei dentro da minha jaqueta marron como abrigaria o mar e seguraria a chama de um isqueiro com a língua e ouviria o sussurro das árvores no azul das tardes só para vê-la sorrir, porque neste mês podemos tudo e por isso, como mágica, evaporaríamos, entre nuvens e cinza e anjos e blues e algas e estrume e porcelana e sonhos até janeiro nos encontrar humanos e mortais, outra vez.


(by, franck)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Cartas & saudades & algum mapa-mundi...


Você não mandou aquelas cartas prometidas, mas as encontrei guardadas na gaveta do criado-mudo num grande pacote envoltas com uma fita azul. Estava esperando coragem e uma noite como esta na qual a saudade se dissipa um pouco, para serem lidas. As cartas já estão amareladas, como a foto, nossa, em sépia, que encontrei em uma delas; estamos sorridentes, como se as nossas possibilidades amorosas, todas, fossem possíveis. Em outra, uma letra de música, 'Fuga nrº 1', de Thiago Pethit, que foi nossa trilha sonora. Encontro também dentro de uma carta, num papel amarelo, um poema que ainda guardo na memória, dito e escrito por você numa manhã chuvosa, que não saimos da cama; então, definitivamente, não poderia ser esquecido. Sinto ainda o seu perfume, que você deixou propositalmente numa dessas cartas e manchas de café e chá e vinho tinto e de algum sanduiche nas cartas escritas em lanchonetes e bares e praças e nas suas madrugadas de tédio e solidão e insônia e saudade, como você relata em quase todas. Quero as cartas que você não escreveu-me quando se foi, mas as recebi sem remetente e sem endereço, nas quais poderia ter mandando ao menos sua latitude e longitude, assim encontraria você em algum globo terrestre, mapa-mundi, em alguma carta aérea, em alguma imagem de satélite, em algum fuso... Talvez assim, as cartas que não mandaste, mas que as recebi agora, nesta noite de saudade, se tornariam reais.


(by, franck)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

No entanto, continuo azul...


Porque quero tardes como aquelas que não tivemos? Porque as tardes existirão, todos os dias, mas eu e você, juntos, dentro delas, nunca mais? As tardes azuladas com você afundando os dedos nos meus cabelos, eu segurando suas mãos? Nunca mais você regando as plantas na varanda e eu abrindo um vinho ao cair da tarde morrendo colorida como uma bolha de sabão? E seu riso ecoando pela rua e os passantes olhando para buscar seu riso, no restinho de tarde com nos dois, juntos, dentro delas? Eu quero as tardes, que não tivemos, e, fico esperando a volta daquelas tardes com os blues lentos e doloridos como todos os blues numa tarde azulada devem ser e são, e, dentro delas, eu e você e vinho e chá e quartzos rosas e incenso e horóscopo chinês e tarôs e a busca por discos voadores no crepúsculo, além do mar. No entanto, continuo azul, como os blues lentos e doloridos, que continuo ouvindo, regando as flores do jardim da nossa casa, nas tardes que você não está dentro delas, nunca mais, nunca esteve, por quê?


(by, franck)

sábado, 20 de novembro de 2010

Quando as libélulas engravidarem


Quando as libélulas engravidarem, será num dia de tons e sobretons, com um avião no céu, bicicletas nos parques e um trem chegando numa estação. Estarei no Xingú, talvez na Amazônia ou no Pantanal, mandarei postais da fauna brasileira ou de nuvens de algodão. As libélulas engravidarão e as crianças vão querer ir ao zoológico, ver o mar, e as libélulas, aéreas, invadirão as montanhas, o urbano das cidades e as praias. Homens estarão trabalhando em engenhos de flores, para recepcioná-las, e, eu estarei sem rota, sem gps, sem bússola, cruzando o país, olhando mapas amarelados, com a certeza dos pontos cardeais. Quando as libélulas engravidarem, voltarei a usar cabelos encaracolados, procurarei estalactites, homo sapiens que sou, em grutas, na América do Sul, e, numa cidadizinha do nordeste terá pipas e fogos de artifícios no ar e um circo com malabaristas e o mágico comerá libélulas grávidas, prenhes de arco-íris, numa tarde lilás, com seus tons e sobretons. Quando as libélulas engravidarem, terá água gasosa na fonte da praça, uma chuva de esmeraldas, e, ao cair da tarde, pirilampos e no correto uma banda de música. Estarei lá, para olhar as libélulas grávidas, cruzando os céus, num dia de dezembro, como se fosse natal, ano novo, páscoa, carnaval.


(by, franck)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O tal casal


Eu queria diurno, ele noturno. Ele queria manhã, eu tarde. Eu queria café, ele chá. Ele queria inverno, eu outono. Eu queria abraço, ele beijo. Ele queria mel, eu agridoce. Eu queria blues, ele rock. Ele queria gim, eu vinho. Eu queria romance, ele ação. Ele queria montanha, eu praia. Eu queria inteiro, ele metade. Ele queria nada, eu tudo.


(by, franck)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando ele veio...


Ele veio de manhã com uma escama no rosto, ou era uma estrela fosforescente? Me disse que fabricava algumas substâncias, não acreditei. Mas ele sabia sobre geografia. Botânica. Astrologia. Nos bolsos trazia cravo-da-índia, gengibre, alçafrão e outras raizes fortes. Ao cair da tarde, no jardim, conversou com os pássaros, tomou café sem açúcar e grandes goles de gim. Quando a noite chegou sussurrou para os livros, para os gatos, as corujas e salamandras. Na madrugada, ele quis o mar. Sexo. Anéis de Saturno. Alguns astros. I ching. Avatar na televisão. Purpurinas. Um dragão. Coisas assim. Ao amanhecer, ele quis chá natural. Roupas amarelas. Um blues... Ele veio e na despedida dei de presente o veneno do meu beijo. Talvez o mate. Talvez o salve. Ainda não sei!


(by, franck)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Qual o seu tipo de amor?


O amor é lindo, mesmo o amor falso dos filmes ou dos clichês nos comerciais da tevê. Mesmo sendo fantasioso. Platônico. Fulgás. O amor é lindo quando imbatível. Impossível. Improvável. O amor dos poemas, é poesia. Dos livros, romance. Mas o amor pode ser fruto proibido. Obsessivo. Imposto. Mas lindo quando verdadeiro. O amor das músicas, é trilha sonora. E ele pode ser tempestuoso. Antigo. Míope. É lindo, o amor, mesmo doente. Fictício. Sobrevivente. O amor pode ser incondicional. Sábio. Moderno. De carnaval. De verão. O amor é Romeu & Julieta. Pode ser lindo e convalescente. Relevante. Inatingivel. Ilícito. Inexato. Mas quando é amor, é lindo!

PS: Hoje é o dia do GRITO À POESIA, então, vamos gritar poemas? Mesmo que o amor morra, a poesia sobreviva!

(by, franck)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os laços e os nós...


Nas madrugadas, derretemos satélites, com nossos telefonemas interurbanos. Contas-me do Texas. Lembras de París, Texas? Imagino-o como o personagem desse filme, o qual vaga pelo deserto em busca de sua identidade perdida, e, você entre indíginas, estradas interditadas e a solidão de um quarto de hotel. Tento dormir com essa imagem, com sua beleza negra e a beleza do poema que recitas-me, sobre os laços e os nós. Os nós e os laços. Devemos nos manter ligados nesses laços das madrugadas? Ou desataremos os nós ao amanhecer?

(by, franck)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Os presentes que não te dei...


( Para Karla )


Moça, só hoje pude trazer seu presente, como aquele poema que não aconteceu, mas não a conhecia naquele dia, lembras? Só hoje trago aquele jardim de cactus, vê as borboletas e as joaninhas e os beija-flores, sobrevoando-o? E aquele avião jogando flores na sua rua? Sentes o cheiro de incenso para perfumar suas tardes? Têm de sândalo. Mirra. Jasmim. Malbec. Também venho convidá-la para um cair de tarde à beira mar, catando aquelas conchas, aquelas que também não mandei; ou você prefere aquele porre? O por do sol? Tenho também um postal do meu céu azul, uma ânfora de algum navio submerso no Parcel Manoel Luís, aí viraríamos escafandristas, buscando tesouros. Trouxe músicas, vamos dançar um reggae? Ou chorar com um blues na despedida? Não, melhor, te darei um bumba-meu-boi, com suas matracas, chocalhos e pandeirões; podes sentar um pouco? Te contarei, moça, de outra moça que quis comer a língua do boi, de puro desejo. De um touro encantado. Da rainha louca que nas madrugadas perambula nas ruas estreitas dessa Ilha. Para você, moça, nesta noite trouxe fogos de artíficios , arroz de cuxá, a estrela vésper indicando sempre o norte, onde ainda estou, perdido em alguma duna que quero também levá-la, por isso, talvez precise de zepelins, asa delta, algo assim, para chegar ao sertão baiano, ainda hoje, com os presentes que não te dei naquele dia.


(by, franck)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

S í m b o l o


Saíste à francesa, ao amanhecer. No criado-mudo, a corrente que usavas no pescoço. Intencional ou esquecimento? Símbolo que preciso decodificar!


(by, franck)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Uma manhã quase blues


Amanhecia devagar. Cinza-inverno. Você procurando estrelas cadentes no céu nublado, queria fazer três pedidos. Na avenida iluminada à beira-mar tudo parecia de plástico, inclusive seu rosto nos óculos escuros na quase manhã, mas você não queria sol, luzes, olho no olho. Atravessei sinais fechados, velocímetro e minha prudência naquela madrugada, como a de dar carona a recém conhecidos. Mas era quase manhã, estava bêbado, você tão jovem e tão retrô com sua camiseta estampando Mafalda. Eu também queria estrelas cadentes, que num dos seus pedidos estivesse incluso, queria zonas erógenas e perigosas com você. Mas não via seu olhar, suas pupilas, e eu queria olho no olho. O beijei naquela quase manhã cinza, sua boca era conhaque, maconha e café. No rádio do carro tocou Bob Dylan e você disse que preferia sax do que gaita, que sax combinaria com o vinho branco que você abriu, chamou-me para sentarmos num banco de praça e ficamos em silêncio enquanto o azul do céu nascia no dia e dentro de mim. Vi tudo blues e não mais sax ou gaita ecoava no carro, na praça, na manhã acontecendo. Subitamente eu precisava beijá-lo muito, você parecendo de plástico, terracota e carmim, eu estava bêbado. Você recitou Bandeira: 'eu quero ser feliz, quero me afogar'. Lá longe o mar, uma esteira esverdeada, o convidei para nadarmos nús, talvez dentro do mar encontrassemos estrelas cadentes, golfinhos, solos de sax, águas-vivas, o Havaí, Iemanjá, um castelo e ficassemos lá, abissais, bêbados e afogados, infinitamente.
Não sei onde o encontrei, nem quando o perdi naquela quase manhã: na praça? No mar? Numa esquina? Num bar? O reencontrei , hoje, num solo de sax e na camiseta verde e suja que esqueceste ou deixaste propositalmente no carro e só então vi seu olhar, sua alma, sua boca recitando Bandeira, como se fosse agora, aquela quase manhã.

(by, franck)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Inalcançável


Meus olhos e meu coração têm sobressaltos dia e noite, noite e dia, porque encontrá-lo nessa cidade está sendo como o embarque e desembarque no aeroporto de Los Angeles, que são em andares diferentes. Está sendo como se fossemos personagens do filme 'O feitiço de Áquila'. Está sendo como se eu estivesse numa fila interminável qualquer e não fosse atendido quando chegasse a minha vez. Está sendo uma tortura chinesa para meus olhos e coração, arrasados. Você tão inalcançável. Assim não quero amar.


(by, franck)

(Quem dá a volta ao zodíaco comigo...)

EU...

Minha foto
São Luís, MA, Brazil
Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...