terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Se eu tivesse escrito nosso roteiro...


Se eu tivesse escrito nosso roteiro, não teríamos nos perdido ainda, na minha história estaríamos em alguma praia ao cair da tarde, em alguma vila olhando estrelas, numa madrugada ouvindo blues e tomando vinho, numa manhã acordando abraçados. No meu enredo os planos, os desejos, os sonhos, se concretizariam, e, você seria também um dos personagens principais. Claro, teria cenas em preto e branco, em sépia, mas o colorido invadiria os ângulos, closes, falas, marcações.
Se eu tivesse escrito nosso roteiro, não teríamos tido 'the end', mas uma história que seria uma novela mexicana, um filme francês, um seriado norte-americano, uma série brasileira todo dia, toda semana, todo mês. Não haveria vilão, mocinho ou herói, mas personagens reais como fomos, como somos. Como não escrevi nosso enredo e não li a sinopse, talvez por isso tenhamos sido canastrões, um fracasso de público, mas sucesso entre os amigos, com nossa adaptação de um romance B, sem estréia, muita luz e pouca ação.
Se eu tivesse escrito nosso roteiro, as cortinas não estariam fechadas, teríamos um 'grand finale', estariam pedindo bis.

(by, franck - imagem: internet)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Um pequeno reino histórico e verde...




(Para Camila Aranha)


Precisava de uma viagem como quem precisa ir urgente a um banheiro. Ela aconteceu, rumo a Pirenópolis, em Góias. Viajar e sentir uma mudança excruciante nas placas tectônicas do meu cérebro, foi o que pensei.

A cidade ali: com seu casario de portas e janelas, seus lampiões, os casais nas suas ruas estreitas, as velas bruxeleantes sobre as mesas dos bares e restaurantes, as risadas, os vendedores, as lojinhas coloridas de artesanatos, a praça com sua feira... Independentemente da minha presença. Das nossas presenças. As montanhas em volta da cidade. A neblina pela manhã. As cachoeiras. As fazendas. Os passeios a pé. Um museu. Um vinho. Os sabores. O luar. Redescubro o meio rural e me pergunto como seria viver em Pirenópolis com sua sedução da alvorada e crepúsculos. Viver num pequeno reino histórico e verde... Eu que tenho uma preferência por bicicletas, a fantasia por tomates que fossem plantados no quintal dos fundos ou na frente da casa, amigos que aparecesessem para visitar sem avisar e que poderiam ficar quanto tempo quisessem... Como tenho a fantasia também de uma vida dramática!

Mas deu-se o que se chama de 'melancólia do viajante', o fato de que a maioria daqueles que amamos não faz a menor ideia de onde estamos, de que nossa ausência entre eles não é notada. E fica as perguntas: Quem somos e onde estamos quando não somos ninguém? O que é gratificante? O que nos esgota? O que somos lá? O que dá cá? O que nos inunda de felicidade? Viajar pode ser prazeroso e perigoso, como viver, como avisou Guimarães Rosa. Só sei que um punhado de momentos nos acompanharão a vida inteira.

E, aqui, nesta outra cidade, vejo nesta noite de domingo riscarem o céu, cinco, seis, sete estrelas, estendo a mão para pegar uma, e, mandar para Camila Aranha no Rio de Janeiro ou em Belém?



(by, franck - imagem: franck)








quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ouço, degusto, choro,olho, cheiro e vejo poesia...




Disseram-me que escrevo poesias, todo prosa, acreditei. Agora ouço poesia no canto dos passarinhos. Na voz de Nina Simone. No choro do guri da casa vizinha. Nos latidos de um cão na madrugada. Agora degusto poesia no café com leite pela manhã. Num suco de maracujá. No sorvete na noite aproximando. Na cerveja com amigos num bar da orla. Agora choro poesia com a família que mora sob a ponte. Com a fonte iluminada da praça no centro da cidade. Agora olho poesia na manhã cinzenta de dezembro. No rapaz de calção de banho azul entrando no mar. Nos cabelos encarolados da moça negra. Nos olhos violetas da minha amiga Elizabete. Agora cheiro poesia na terra após a chuva da tarde. Na grama recém cortada. No perfume da anciã no ônibus ao meio-dia. No pão assando na padaria às quinze horas. Com o incenso queimando nas ruas com a chegada do fim do ano. Agora vejo poesia pintada nos sobrados de azulejos do centro histórico da ilha. Na tela de um artista de rua. No colorido das frutas do vendedor na praia.Trago poesia na agenda. Na carteira. Nos bolsos. Na alma. No coração...Enfim, todo prosa, acreditei na poesia!(by, franck - imagem: net)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Nos olhos uma luz de pirilampos...




Pedro, homem do mar, nele habitam conchas, algas, ostras. João, homem urbano, carrega consigo buzinas, cronômetro, gravatas.Pedro, homem das águas, têm nos olhos uma luz de pirilampos, escaravelhos, estrelas. João, tão chão, porta óculos, porão, binóculos, sotão, lunetas.Pedro, homem marinho, mas com seu coração montanha, falésia, geleira, tão abissal. João, brotando girassois, avencas, orquídeas, um jardim no coração.Pedro chega todo iníco de noite cheirando a salitre, peixe, cerveja, mangue. João à sabonete, shampoo, creme de barbear, loção de barba, perfumes no ar.Pedro senta na mesma poltrona e encontra João tomando vinho, ouvindo músicas, envolto com panelas, dizendo cansado de seu dia. Pedro conta causos de sereias, iemanjá, raios, trovões, chuvas e pescadores. João finge que se interessa, olha para o corpo de Pedro com tesão e tenta esse homem amar.



(by, franck - imagem: net)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Cheirando a campos de papoulas






Quero vc antigo. Apaixonado. Equilibrista num domingo de junho, como aquela tarde azul à beira mar, menino ostra. Quero você sem guarda, sem proteção, no olho do furacão. Rosto carmim. Caulim. De olhos fechados, mas de braços abertos, numa noite de chuva, percorrendo zonas perigosas ou nosso jardim do Edén? Quero você nos meus planos futuros, assim... Como ontem, naquele bar, sentimental eu fico, sou. Somos. Homem lobo. Olho no olho. Mão na mão. Pensamentos num janeiro, numa viagem. Quero você, porto não tão seguro, mas atracado, cais. Ilha. Noites de bossa. Fossa. Contramão, mas você na direção de nossos dias, do carro, do meu coração... Quero vc, sim, como hoje ao telefone, manhã nublada, falando das pessoas nas ruas. Os gritos na feira. Os gatos em casa. Das nossas plantas. Relembrando o homem antigo. O de ontem. Vislumbro as lantejoulas da loja ao lado. Rimos das nossas visitas. Quero o chá que está tomando. Quero você, assim, nos meus sonhos, real, atemporal. Medos e brilhos. Blues. Cheirando a campos de papoulas. Quero você, sorridente, como fotos em sépia, vintage que fomos. Somos. Polaróide. Cartão postal de nossa felicidade.(by, franck - imagem: internet)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Não colherei girassois na noite que se aproxima



Trago correntes nos tornozelos, por isso não atravessarei desertos como o beduino que quero ser. Mas beberei toda a água de um rio, dromedário que sou. Esse rio seria meu istmo naverrante, mas estou prisioneiro nesta ilha de algum continente.

Trago correntes na alma e sou um elefante, aquele que se isola dos seus com a iminencia de sua morte. A solidão chega nos olhos tristes desse elefante e em alguma tarde azul, e, eu choraria para a lua se a olhasse no pedaço de céu que vejo da minha janela. Mas nem o azul da tarde e nem o prata da lua invadem o branco mais branco que habito.

Trago correntes nos pulsos, por isso não cavo tunéis. Não darei abraços. Não colherei girassois na noite que se aproxima. E essa mordaça na boca? Sou um cão longe de sua matilha, uivando para a lua que não vi e nem sei se apareceu. Queria gritar. Cantar. Chamar por você, que nem sei se existe.

Não sei se é sonho. Alucinação. Realidade. Só sei que é outro dia. Um dia cinzento. Talvez chova por todo o planeta e as águas, os raios e os trovões desse dilúvio arrebentem correntes, mordaça, lavem minha alma e me levem para algum deserto. Para a lua. Para algum caos urbano. Assim me salvaria beduino. Dromedário. Elefante. Cão. Ou o humano que não sei se ainda sou.



(by, franck //imagem: internet)

domingo, 23 de outubro de 2011

Tenho tido sonhos estranhos...



Tenho tido sonhos estranhos: perdi o trem num país estranho e já anoiteceu, mas tenho um mapa em relevo e paira um cheiro de chumbo no ar. Do outro lado da estação um menino de olhos verdes usa pele de cabra e toca uma flauta tosca, um fauno, talvez. Acordo nas madrugadas desses sonhos recorrentes e a ideia do futuro circula dentro de mim, vou até a janela da minha casa, que é só uma entre milhares nessa cidade, assim como meus sonhos, meu futuro e minha vida é apenas mais uma história na cidade que amanhece. Adoro a cidade, mas nunca me senti realmente à vontade nela, quero morar junto à natureza, criar raízes e deixar o cabelo e a barba crescerem, plantaria rosas, porque já tive alguns jardins, mas nunca plantei rosas. Plantaria também ervas aromáticas. Andaria descalço no orvalho. Cheiraria a sal, porque teria também mar. Os moradores deixariam a chave pendurada na porta. Levaria livros de poesia quando fosse caminhar, porque a caminhada combinaria com poesia. Uma coruja pia no quase amanhecer, penso na coruja de Minerva.

Tenho tido sonhos estranhos e recorrentes. 'Você deve mudar sua vida', disse Rilke. Penso nas minhas listas com cinquenta coisas que quero fazer antes de morrer que estão por toda a minha casa: na mesa de jantar, no balcao da cozinha, no criado-mudo... Ando fazendo listas de coisas a comprar, metas a cumprir, planos longos, listas e listas... O sol desponta, o dia tem uma luz que gostaria de engarrafar para guardar. Tenho vontade de correr sob esse sol na manhã, como quem corre de uma tempestade. Como não perder aquele trem. Traduzir o som da flauta. Sentir cheiro de rosas e não mais de chumbo. Decifrar aquele mapa. Tenho tido sonhos estranhos. E recorrentes.



(by, franck ///imagem: internet)

(Quem dá a volta ao zodíaco comigo...)

EU...

Minha foto
São Luís, MA, Brazil
Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...