quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ilha


Sobre a mesa
tinha uma bandeja de louças brancas e café com leite
bolo de maracujá
e um continente, separando nós dois.
Sobre a mesa tinha também
livros de poesias
e na noite que começava tinha uma varanda com um jardim
um blues que não ouvíamos
e um continente, separando nós dois.
Bastaria estendermos às mãos, sobre aquela mesa
deslocaríamos placas tectônicas
faríamos abalos sísmicos
e qualquer país.
Minhas noites nunca mais foram as mesmas
desde aquele continente, separando nós dois
e na ilha que me fiz.
(by, franck)

domingo, 23 de novembro de 2014

Estilingue


Costumo me perder em tardes de domingo
uma repetição, tão antiga, nesse tempo presente
talvez me acharia num combo de alguma lanchonete
num café amargo
numa música de alguma estação de rádio.
Costumo me perder em tardes de domingo
mas queria atravessar a cidade para sorver um último gole de água salgada
de qualquer praia
enquanto à noite não chegaria e ainda encontraria tempo de colher
vinte flores amarelas
num jardim que não existe
para enfeitar à mesa do jantar.
Costumo me perder em tardes de domingo
como quem sai de um cinema, do nada, de uma galeria vendo pinturas surreais
como quem tem o sol numa rede perto da janela do quarto
como quem termina de ler 'salão chinês' e tem que 'arrumar as malas antes de te escrever a carta de despedida'
ou que o domingo acabe.
Costumo me perder em tardes de domingo
muito antes de o conhecer
quando ainda não havia esse estilingue
me deixando em carne viva
que é o seu olhar.
(by, franck)

domingo, 9 de novembro de 2014

Máscara


Me derreteria como uma máscara de cera que tivesse sido aquecida
em hotéis baratos, em alguma cidadela
de nenhum país
olhando seus olhos dourados de pássaro.
Me derreteria como açúcar na água
ouvindo guinchos de trem
numa cidade antiquíssima
de todos os países
olhando seus olhos de ave de rapina.
Me derreteria como se fosse, finalmente, a liberdade
olhando seus olhos engolidores
porque acreditei que o aval para a minha liberdade
era um muro e/ou cortinas em casa.
(by,franck)
(imagem: net)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

No jardim ainda existem flores


A casa e suas salas vazias; seus cheiros de tabaco, livros, suor, de pai, masculinidade.
Os quartos com seus rendados, lençóis usados, xícaras com chá, odores de lavanda, cremes, mãe, feminilidade.
Nos corredores vozes que se misturavam. Carícias. Olhares nos retratos. O prazer perdido. 
Peixes pálidos na cozinha. Manhãs em desordem. Alguns mistérios. Mesa posta.
No jardim ainda existem as flores que não deixavam eu apanhar. Reflexos partidos das nuvens nas fontes, não mais lá em cima.
Minha falta de sentido em outras casas desconhecidas, com seus andares inteiros, jardins sob jardins, outras paisagens vistas das janelas.
Restou a velhice que tememos; esse lembrar de algumas coisas e outras, não. O vazio do tempo e das distâncias. Esse lugar que chamam de solidão, o qual não podemos partilhar com ninguém.
(by, franck)

sábado, 11 de outubro de 2014

O 'Quando o azul não desbotava', no Jornal 'O Estado do Maranhão', 11 de outubro de 2014, sábado.
Espero vocês para um abraço, um beijo, um beiju, um chocolate, rabiscar no livro, uma taça de vinho e celebrar a prosa e a poesia!

sábado, 4 de outubro de 2014

Amolaria facas


Amolaria facas nos olhos dos transeuntes se facas comigo tivesse no dia que o azul se condensar no mais brilhante azul de todas as ilhas do hemisfério sul, claudicaria cego nos caminhos que não sei se saberia mais andar, porque teria nas retinas sensações que veria vagalumes, formigas, gigantes e peixes nadando nos vãos de um aquário para nenhum azul. 
Amolaria facas nos olhos de pássaros de asas cortadas se facas comigo tivesse no dia que o azul se condensar no mais brilhante azul de todos os continentes, porque nos ouvidos teria o barulho de mil bem-te-vis, e, nesse dia não se precisaria enxergar a não ser que estivessem procurando os pássaros sem asas e sem ninhos, fadados ao chão, mas encharcados de todas as cores, menos o azul.
Amolaria facas nos olhos dos acrobatas e bailarinos se facas comigo tivesse no dia que o azul se condensar nos trópicos, porque eles fatigados de suas redes e piruetas tiverem esquecidos dos campos de papoulas, dos pântanos, das florestas, serei capaz de contar-lhes e fazer senti-los como são os aromas e as cores, assim como um marinheiro procuraria outros navios no azul infinito.
Amolaria facas nos meus olhos se facas comigo tivesse no dia que o azul se condensar no mais brilhante azul de todo o universo, porque nesse dia rasgaria as fotografias não tiradas de nos dois e entraria num labirinto sem me preocupar se sairia dele, Minotauro que sou, porque dentro das minhas pupilas limaria todo o azul que nunca existirá.
(by, franck )

Cartas marcadas


Eu sou aquele faquir, dormindo em camas de pregos e caminhando sobre cacos de vidros. Enquanto você continua entre suas tênues gravuras e flores artificiais, inventando o nosso futuro em suas cartas marcadas.
Eu sou aquele que vai ao Alasca no projeto mundo cão, enquanto você enfeita seus dias com túnicas de motivos astrológicos, pedras semipreciosas, minúsculas esculturas de ossos.
Eu sou aquele que ainda se guia pelos pontos cardeais, recolhendo pelo caminho pedras de coral, folhas e escaravelhos petrificados. Enquanto você tenta decifrar minha ancestralidade de homem vivido nas montanhas.
Eu sou aquele que está chegando. Enquanto você diz que o mundo agora é uma aldeia.
Me manda pelos ventos o cheiro de mar dos seus cabelos.
(by, franck)

(Quem dá a volta ao zodíaco comigo...)

EU...

Minha foto
São Luís, MA, Brazil
Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...