Estou descalço e não tenho sono. Na madrugada o silêncio parou o horizonte da ilha e na varanda só o vento passa, mas queria roçar de asas, um café, a dor de todas as ruas vazias; porque me sinto assim e sou assim, uma pessoa tão solitária como quem fumou o último cigarro num deserto? Porque quero deixar pegadas falsas para que nunca mais me encontre? Porque escrevo cartas vermelhas e talvez enlouqueça e jogue-me e...m algum movediço porto?
Sou um estrangeiro na minha casa, na minha rua, na minha cidade. Sou um refugiado, talvez algum dia encontrem fotos, postais, anotações, restos de mim... Um dia, numa outra cidade, encontrem tudo isso de mim numa feira de antiguidade. De mim, tão solitário, tão só como a dor de um bicho, talvez de cães que ladram na noite querendo carinho, vozes humanas, a volta dos seus donos que os deixaram na rua.
Quero dormir, mas não consigo. É madrugada. Nâo há mais silêncio na ilha, o Sol colore seu horizonte. Pegadas e carros esmagam as flores no asfalto, as feiras acordam os bairros. Quero ainda um café, meu quarto onde as belezas tristes retornam; quero o branco, o esquecimento, porque não sou eterno, talvez um dia numa feira de antiguidade; mas rasgarei minhas fotos, meus cartões, todos os escritos e declarações antes de morrer. Por enquanto, olho o horizonte e o sono não vem.
(by, franck)
(imagem: net)
..."a lua completa mais de uma volta pelo zodíaco. E o anjo pálido troca o mel pelo sal"... (Caio F. Abreu)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
'O mundo sem nós'
(Texto para a Corrente Literária)
Hoje
nenhum pássaro cantou na manhã nossos soluços
porque nem eles, nem nós, existimos mais
mas ainda há um guarda-sol na varanda
gestos tristes nos espelhos
mas os risos que trazem cadeiras as varandas, esses não.
Hoje
nenhuma pipa cruzou o céu azul da tarde
porque não há meninos nas ruas
mas meus sapatos amarelos esperam no quarto
mas o rumor da máquina de costura da casa da minha mãe
não mais
nem música, poesia, cinema, televisão, internet, sexo
restou um perfume suave das tardes febris
uma rosa machucada no jardim.
Hoje
recordando os instantes que passaram
tudo é triste nas casas da minha rua, da cidade, do país,
do continente
porque não somos mais
como aqueles que ficaram.
Hoje
o mundo corre abaixo de nossos retratos
nas roupas pretas dos varais
sem nós.
(by, franck)
(imagem: internet)
Hoje
nenhum pássaro cantou na manhã nossos soluços
porque nem eles, nem nós, existimos mais
mas ainda há um guarda-sol na varanda
gestos tristes nos espelhos
mas os risos que trazem cadeiras as varandas, esses não.
Hoje
nenhuma pipa cruzou o céu azul da tarde
porque não há meninos nas ruas
mas meus sapatos amarelos esperam no quarto
mas o rumor da máquina de costura da casa da minha mãe
não mais
nem música, poesia, cinema, televisão, internet, sexo
restou um perfume suave das tardes febris
uma rosa machucada no jardim.
Hoje
recordando os instantes que passaram
tudo é triste nas casas da minha rua, da cidade, do país,
do continente
porque não somos mais
como aqueles que ficaram.
Hoje
o mundo corre abaixo de nossos retratos
nas roupas pretas dos varais
sem nós.
(by, franck)
(imagem: internet)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Qual era a senha?
Houve um dia que você me disse que as suas tardes ficavam tão vagas, lembrei hoje de convidá-la, passa aqui qualquer tardinha dessas, estou sempre em casa. Vamos dar risadas e é bem capaz
que choremos um pouco também. Não me diga que o convite chegou tarde demais, mas as manhãs são para leite morno com chocolate, vasculhar armários, dormir mais um pouco, às vezes acordo pensando que um abraço apertado poderia me salvar, mas olho para o lado e não vejo ninguém, resignado, fecho os olhos e volto a dormir afogado em sonhos e neblinas. Mas hoje eu sonhei que havia um encontro combinado, a senha era um navio de brinquedo,mas nem estávamos numa cidade à beira mar, estávamos numa cidade ao Sul, entre montanhas, escombros, fumaça, céu cinza... Somos sobreviventes buscando signos, indícios, uma canção, mas o silêncio será a melhor das melodias.
Agora de novo é verão aqui dentro e não sinto mais frio. Mas o meu peito e as estradas ficaram saturadas de uma sensação de extemporaneidade, de atraso, e, restou meu sonho, nosso sonho, um vento lá fora no qual voam desespero, saudade, teu diário que um dia foi tão nosso poema e outras coisas inevitáveis que se encontra em todo lugar. Sou tudo o que tens entre eles e o caos. Espero-a, o céu abaixo deslizando e a distância se desfazendo num campo de girassóis, ervas, um alto castelo, numa lágrima de fogo nos olhos expostos ao sol, e, ainda não cheguei, esqueci a senha, o coração na boca, atravessando a cidade entre ferrugens, latas vazias, multidão, apitos, sirenes, morte e vida, vida e mortem solidão... As estradas saturadas... Tateio, mas quero voar, chegar antes que anoiteça, um coração de pedra e de silêncio... Encontrar você no jardim, ou um tigre, um cão, um beija-flor, o ideograma da morte. Uma flor na areia. O sabor das cinzas. Musgo. O silêncio de dois insetos. O esquecimento com flores inúteis... Mas esqueci a senha, nossas tardes vagas, mas somos sobreviventes e persistentes...
(by, franck)
(imagem: Net)
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
"Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena." (Pessoa)
(Texto para a Corrente Literária: 'O que vale a pena ser?')
Valerá a pena ser quando ele vier para comemorarmos meu aniversário, o que não vale a pena é morrer de saudades, apaixonado que sou, esperar ansiosamente outra vez tê-lo, revê-lo, tocá-lo, sentí-lo.
Quando ele vier, fingiremos sermos ricos num sábado à tarde e sairemos às compras. Pegaremos táxis. Tomaremos um chá. Andaremos num dia qualquer desta primavera pelas ruas sentindo uma onda de desejo pela cidade quando os sinos das igrejas repicarem, o cheiro das maçãs argentina invadir nossas narinas das bancas nas esquinas, ouvi uma adolescente cantarolando Paula Toller.
Quando ele vier, no meu aniversário, para fazer valer mais a pena sermos, vamos viajar de navio, num roteiro desconhecido; quem sabe nos embrenharemos na Floresta Amazônica, atravessaremos a América do Sul a pé, escalaremos o Himalaia. Talvez moremos numa cabana à beira-mar e nos tornaremos pescadores. Venderemos nossos bens e passaremos fome. Voaremos. Nos arrasteremos por desertos. Andaremos de esqui. Trocaremos de parceiros. Cometeremos suicídios.
Mas, quando ele vier se nada disso acontecer para sairmos do lugar comum, estar com ele, na rotina dos dias iguais, já valerá a pena ser e tê-lo, aqui, cara-a-cara com nossas almas.
(
domingo, 9 de setembro de 2012
Sob o mesmo azul (Para Thiago)
Não partimos ainda. Nem ele. Nem eu. Ele permanece sob o céu do Planalto Central e eu caminho numa praia de uma manhã sob o céu do Nordeste. Mas temos a mesma solidão, a mesma luz, as cores fortes ou desbotadas das ruas ou das paredes que nos rodeiam. Mas poderíamos capturar os tons e sobretons das nossas solidões, nossas esperas, ang
ústias e desesperanças.
Não partimos ainda. Nem eu. Nem ele. Mas damos voltas por dentro dessas cidades e noites vazias. Imagens da viagem surgem no silêncio da plataforma. Qual a máquina de moer que nos tritura, que nos oprime, incontrolável? Será que sempre vivemos em descompasso com a vida e o mundo? Será que ainda somos nós?
Ainda teremos tempo para acertarmos os passos?
Não partimos ainda. Nem ele. Nem eu. O mesmo céu ainda nos protege? Devemos paralisar o apito do trem? Ou a melancolia de algo impenetrável? Momentos reaparecem, provocados por fatos banais como o cheiro de malbec. Ou de uma flor. Um papel amarelado. Um cartão telefônico. Uma fotografia. Um livro. Um filme. Uma palavra. Um sorriso. Adele cantando 'On and only'. Uma casa. Um rosto. Um trecho de uma música de Marcelo Camelo. Uma janela fechada...
Não partimos ainda. Nem eu. Nem ele. Apesar do mesmo Sol. Da mesma Lua. Da mesma chuva. Do mesmo azul. Das mesmas músicas. Não partimos ainda, mas um fio invisível nos mantém unidos, sob o mesmo céu.
(by, franck)
(imagem: internet)
Não partimos ainda. Nem eu. Nem ele. Mas damos voltas por dentro dessas cidades e noites vazias. Imagens da viagem surgem no silêncio da plataforma. Qual a máquina de moer que nos tritura, que nos oprime, incontrolável? Será que sempre vivemos em descompasso com a vida e o mundo? Será que ainda somos nós?
Ainda teremos tempo para acertarmos os passos?
Não partimos ainda. Nem ele. Nem eu. O mesmo céu ainda nos protege? Devemos paralisar o apito do trem? Ou a melancolia de algo impenetrável? Momentos reaparecem, provocados por fatos banais como o cheiro de malbec. Ou de uma flor. Um papel amarelado. Um cartão telefônico. Uma fotografia. Um livro. Um filme. Uma palavra. Um sorriso. Adele cantando 'On and only'. Uma casa. Um rosto. Um trecho de uma música de Marcelo Camelo. Uma janela fechada...
Não partimos ainda. Nem eu. Nem ele. Apesar do mesmo Sol. Da mesma Lua. Da mesma chuva. Do mesmo azul. Das mesmas músicas. Não partimos ainda, mas um fio invisível nos mantém unidos, sob o mesmo céu.
(by, franck)
(imagem: internet)
sábado, 25 de agosto de 2012
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
(Texto para a corrente literária: 'O que dura pouco para você?')
Dia desses a folhinha, o celular, o computador, o jornal, a agenda de compromissos informaram que era uma quinta-feira de agosto e naquela quinta conheci mais um 'futuro-nunca-namorado'. Sei que não se pode chamar de conhecer esses encantamentos instantâneos e unilaterais, mas não sei como substituir conhecer por outra coisa. Quando o vi, comecei a tecer hipóteses, passados e futuros, e, no início da noite daqu...ela quinta-feira a cidade se transformou em um show, um show colossal com seus ônibus e táxis e carros e pessoas apressadas andando nas calçadas, as lâmpadas acesas das lojas, bares e avenidas em plena tarde, e, eu ali, encantado com os efeitos sonoros de buzinas e vozes humanas e a presença dele.
Ele conversou e riu e gargalhou. Falou, gesticulou, fez que ia embora. Não foi. Foi. Eu continuei sentado, olhando ele ir e o espetáculo do cair da tarde, os amigos em comum, o que horas atrás havia sido um sorvete de jaca e o copinho caido na calçada (nada ecológico), o qual ele passou por cima e por cima dos meus devaneios, para não mais voltar. Oito dias é tão passado quanto dez minutos ou um mês atrás.
(by, franck)Ver mais
Dia desses a folhinha, o celular, o computador, o jornal, a agenda de compromissos informaram que era uma quinta-feira de agosto e naquela quinta conheci mais um 'futuro-nunca-namorado'. Sei que não se pode chamar de conhecer esses encantamentos instantâneos e unilaterais, mas não sei como substituir conhecer por outra coisa. Quando o vi, comecei a tecer hipóteses, passados e futuros, e, no início da noite daqu...ela quinta-feira a cidade se transformou em um show, um show colossal com seus ônibus e táxis e carros e pessoas apressadas andando nas calçadas, as lâmpadas acesas das lojas, bares e avenidas em plena tarde, e, eu ali, encantado com os efeitos sonoros de buzinas e vozes humanas e a presença dele.
Ele conversou e riu e gargalhou. Falou, gesticulou, fez que ia embora. Não foi. Foi. Eu continuei sentado, olhando ele ir e o espetáculo do cair da tarde, os amigos em comum, o que horas atrás havia sido um sorvete de jaca e o copinho caido na calçada (nada ecológico), o qual ele passou por cima e por cima dos meus devaneios, para não mais voltar. Oito dias é tão passado quanto dez minutos ou um mês atrás.
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- Franck
- São Luís, MA, Brazil
- Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...






