quarta-feira, 5 de março de 2014

Minha alma nativa

Viajo num trem do interior,levo uma alegria triste
o ciclo dos astros por um ano
minha nativa alma da América do Sul.
No sonho, você parado numa estação dançando flamenco
não desço, sou areia e sol
só sei dançar bumba-meu-boi.
Mas quero cruzar a rota 66 e contar das sequóias
ser personagem de Bagdá café
encontrá-lo num casamento indiano ou sob as cerejeiras em flor.
Sou a fantasia de um mundo blues
não sei de Nepal, Lago Keitcharo, Empire State,
mas contarei da Serra da Mantiqueira, Xambioá, Araraquara, Belém do Pará.
Viajo num trem que talvez me deixe em Albuquerque
verei balões de ar quente
água-viva, que sou, dos mares do Sul.
Mesmo em hemisférios opostos, somos marcas, 
Fósseis. Iguais.
No sonho, o relógio continuou funcionando.
(by, franck)

Um beijo na boca, é carnaval!

Domingo de carnaval. Cidade deserta. Eu deserto de mim, após almoço com amigos. Copos de vinho tinto. Blues de Nina Simone. Quero um táxi. Centro da cidade, onde estão todos? Uma febre que volta à tardinha. Alguém fantasiado, tão solitário, se eu dissesse para ele eu te amo? Que falta faz B. Porque não o amei? Porque não sou River Phoenix? Se tivesse sido ele, Milton teria feito música em minha homenagem. Uma rede na noite de domingo na varanda. Um livro. Uma tatuagem no pescoço da moça querendo meu táxi. Quero um beijo na boca, é carnaval. Sou um índio sul-americano, uma vendedora de cuscuz. A tevê ligada. Carnaval. Domingo. O rádio tocando baixinho Cazuza. Saio para comer uma pizza? Aquele email que não chega. Investigar preço de um notebook, as lojas abrem na segunda-feira? Purpurina. Água de coco. Facebook. Pedido de hospedagem no Couchsurfing. Chá de capim-limão. Ameaça de chuva. Como te amei e não disse? Cartão-postal de Inhoti, Minas, no criado-mudo. Madrugada. Desfile das escolas de samba. Café. Um amigo no telefone. Fim de domingo...
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(by, franck)

A ave e ele

A ave sobevoou a praia, passaria ali o verão, faria ninho, teria filhotes. Ele olhou aquele voo e a achou exótica. A ave o viu contemplando o horizonte no fim da tarde, naquela varanda, não sabia de suas inundações e que ele tem sempre um pássaro que resgatou naquela praia ou no seu coração. Ele pensou em asas: 'que você salta e depois cria asas'. A ave rodopiou mais uma vez e viu os barcos, os peixes, e, pensou em comida abundante. Ele pensou que lâmina cega é mais perigosa do que o fio de uma navalha. Ela, a ave, pousou no jardim dele, 'os girassóis enlouquecidos de luz', então ela cantou ou chorou, não se sabe. Ele ergueu a cabeça com seu rosto de mil rugas para o Sol, olhou uma vez mais a ave, tão solene, ao anoitecer, no seu jardim, pensando que iria reivindicar o centro do seu coração. 
(by, franck)

Eis sua chave azul

Com ela abrirá uma caixa de pandora. Um sótão. Porão. 'Labirinto do Fauno'. Em manhãs melancólicas, ela o levará a um brechó. Inhotim. Ouro Preto. Uma praia nordestina. Uma feira. Madagascar.
Se ela, a chave, mudar de cor, como aqueles galos do tempo, lembras? Ela poderá o levar a uma praça em Belo Horizonte. Uma rua estreita de São Luís. Frequentar torres. Ruínas Incas. Cantar 'Ne me quitte pas'... Cuidado com os tons e sobretons nos momentos de euforia porque ela poderá levá-lo a escalar montanhas. Esquiar. Tomar um porre. 'Invadir um bistrô'. Fazer declarações de amor. Voar.
Guarde a sete chaves essa chave azul ou ela abrirá coração. Alma. Cofre. Catedral. Estação de trem. Garrafa de gênio, desde que seja azul.
Não estranhe se num dia ou noite qualquer essa chave o levar aos céus ou ao inferno num balão. Numa nave. Nas asas de um pássaro ou de um anjo...
Eis sua chave azul!
(by, franck)

Libra em touro

Pedaços de cartas. Tuas mãos vazias.
Pelos olhos teus lanternas chinesas, num jardim tropical.
Um táxi cruza branco veloz a cidade. Uma chuva ácida desaba na tarde.
As antenas trêmulas captam imagens lunares.
O ritmo do oceano atravessa-me na madrugada
e na manhã
todos os voos voltam à sua origem.
Jaula do silêncio que sou
reconstituo teus versos nas cartas em pedaços 
onde figura teu nome apagado.
Ideograma.
Um rio que não tem cura
sob a minha porta
libra em touro.

(by, franck)

Na boca mil vezes 'eu te amo'

No umbigo da noite, levo-te vinho. Seda. Penumbra. Meu corpo.
Na boca mil vezes 'eu te amo'.
E o azul-lilás do olho do furação.
(by, franck)

No hemisfério sul é outono

No hemisfério sul é outono
estudante simpático de design que ouve canções francesas, desenha abstratos
me interessa, mas não sei se anima
como as tardes transformando quinquilharias em poemas visuais.
As tardes cinzentas na cidade do hemisfério sul
mereceria uma fotografia
como as telas do estudante simpático
porque sinto simpatia e desdém
por imagens de marinheiros, tatuagens, estrelas e manguás
mas também sinto alívio por ter alguém com quem conversar sobre poesias, crimes, limeriques
e a sensação de estar preso dentro da própria pele
como se os dois pudessem preencher buracos da alma, do outono, dos corações.
No hemisfério sul
estudante simpático de design me interessa
num outono
porque sou um escultor cego quebrando tudo.
(by, franck)

(Quem dá a volta ao zodíaco comigo...)

EU...

Minha foto
São Luís, MA, Brazil
Um brasileiro-nordestino, um cara comum, qlq um, como diria Caetano Veloso...