terça-feira, 19 de outubro de 2010

Uma história quase azul

A primeira vez que se viram estavam no estacionamento do prédio. Ela vagamente familiar para ele. Ele totalmente desconhecido para ela. Madrugada. Olharam-se desconfiados, e, se perderam ali mesmo. Uma semana depois, numa tarde de sábado, se reencontraram esperando o elevador, ela com compras; novamente a sensação que a conhecia, mas de onde? Ele, vindo da praia, ela lembrou que o já vira, mas onde? Desceram no mesmo andar, apenas os dois, silenciosos; mas ela não conseguia carregar todas as compras, no que ele ajudou. Moravam de frente um para o outro, como não tinham se cruzado outras vezes? Ela agradeceu a ajuda, sorriram, e, cada um foi viver o que restava daquele sábado, coincidentemente, dentro de seus apartamentos. Mas naquela noite ele soube de onde a conhecia, quando ligou a tevê, ela estava lá, na novela, e, no apartamento do outro lado do corredor.
Apartir daí, se reencontraram sempre, como se tivessem combinando horários. Os sorrisos, os acenos, foram fluindo. Ela era a atriz do momento, mas sempre sozinha? Ele se indagava. Ela cada vez mais querendo saber daquele homem tão bonito e aparentemente tão sozinho. Não se sabe quem tomou a iniciativa, se foi ele que perguntou com quem ela ficaria no final da novela, se ela que bateu na porta dele num domingo à tarde, pedindo que ele trocasse uma lâmpada no apartamento dela. Sabe-se que o destino, o acaso, ou qualquer outra denominação que seja, conspirou, e, quando viram estavam naquele fim de tarde de domingo,tomando vinho, contando suas histórias, suas vidas: Ela recém-chegada de outro estado, era a atriz revelação, a descobriram num teatro, sentia-se perdida e sozinha naquela cidade, mesmo com o ritmo intenso das gravações. Ele, saindo de uma relação, ainda com algumas cicatrizes, trabalhava com publicidade, por isso, seus horários de trabalho variavam tanto.
Na semana seguinte, se telefonaram. Se viram num café, rapidamente, numa folga dela: Ela tomou água com gás, ele dois cafés com leite; ela fumou três cigarros sabor menta, ele a convidou para jantar. Ele cozinhou para ela, enquanto ela falava de seus pais, da cidade serrana no sul do país que passou a infância, que trabalhar na tevê era uma profissão como as outras; ele contou que tinha ido a cidade da infância dela passar umas férias quando adolescente, que tinha passado um ano em Barcelona, que teve cinco cães quando criança.
Os encontros se tornaram uma constante, passavam fins de semana entre lençóis, ouvindo rádio na madrugada. Na pousada onde se refugiavam, ele leu poemas para ela, ela chorou, disse que chorava mais de alegria do que de tristeza. E vieram os cinemas, os teatros, descobertas de ambos, as primeiras brigas, as reconciliações, a viagem dela para o exterior com a gravação do final da novela.
Naquela noite chuvosa, quando ela retornou da viagem ao exterior, quando ele foi buscá-la no aeroporto, quase não conseguiu chegar perto dela, com os flashs e jornalistas a sua volta; com ela distribuindo sorrisos e falando ao ouvido do ator que contracenava com ela na novela. Na volta para casa, um silêncio interrogativo, uma possibilidade remota da felicidade deles, tinha quase acontecido, ele soube que não eram mais um casal, havia ocorrido o que ele temia.

(by, franck)

42 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Mundos que se encontraram e desencontraram.
    Me deixa a sonhar...
    Queria que o final fosse feliz, como nas novelas!
    Um Grande Beijo pra ti!

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  3. Contando que nada dura para sempre e que, amamentamo-nos mais de passado que de presente, e bem, para o futuro não se sabe em qual parte encontraremos o que passou... A história pode um dia ficar azul nãao ? :)
    rs, é qe isso foi tão real pra mim... !
    adorei mesmo, e espero pelo próximo! Seus textos me fazem viajar, e fico assim, cheia de especulações por essa verdade que creio ser inventada ! :)
    beejo, fik com Deus.

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  4. Franck, confesso que imaginei um final lindo, alias essa minha cabecinha romântica sempre procura por finais felizes...mas, não foi...que pena.
    Mas, valeu, porque deu para viajar um pouquinho e até imaginar um outro final.
    rsrs...é coisa de cabecinha romântica uai.
    Beijosssss

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  5. Lindo texto, assim como todos os que escreves. Está cada vez melhor, fico feliz em lê-lo.
    Obrigada por sempre passar no meu silêncio.
    Por onde ando? Exatamente isso que eu gostaria de saber, não sei por onde ando. Sei que estou triste, sozinha, me sentindo um nada no meio de nada. Me encontro no meu devido silêncio afim de recuperar algo que me foi perdido. Afim de amenizar a dor e acabar com o vazio que me cabe.
    Sei que passa, sempre passou.
    Obrigada, mais uma vez, pela preocupação, ou educação de querer saber como estou. Embora confusa que sou, espero que tenhas me entendido, ou tente, pelo menos.
    Muita paz pra ti. Sempre

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  6. Ai Frank...

    Porque os amores verdadeiros nunca são possíveis... e as relações imperfeitas e falidas duram por longo tempo... anos... ou a vida inteira???

    Isso me entristece sabe... me deprime! Aff!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Essas histórias quase "azuis" se repetem por todo lado... com "quase" ou com todos...

    Linda noite... de quase...

    Deixo beijo
    Com carinho
    Sil
    Sempre aqui

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  7. Ei Frank!
    O texto é ótimo!
    O amor não resiste à distância, sempre perdemos algo!
    Gd beijo

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  8. Franck,

    Lindo , belíssimo ...

    Retrata tão bem as relações , não digo as de hoje, porq relações são atemporais.
    Encontros e desencontros sempre existiram e existirão ...
    Assim como os finais felizes , ou não.

    Contudo e sobretudo , continuo partidária do
    Amor com seus riscos , encontros , desencontros
    e tais ...


    Lindo , não há o que se dizer .
    Fez cada um de nós viajar ,habitar esse
    apartamento , viver esse amor.



    BjO Imensooooo Cheio de Carinho....



    PS:
    Também estou meio novela mexicana.
    Rsrs ... Aff !

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  9. Oi, Franck, como sempre deixando uma pontinha de mistério nas suas crônicas, gosto muito.
    Beijos

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  10. Texto tão bonito e tão real. Deixa-nos a pensar que o amor nos nossos dias, raramente é eterno.
    Bjs

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  11. Poxa que pena...
    O título já tinha me feito viajar.
    Quase azul...bem, lembre-se que eu pinto...as vezes. Ai Franck, deve ser por isso que eu estou estressada, tem meses que não pinto.rs Bem e nas minhas pinturas existem vários tons de azul, alguns são quase azuis, tipo o azul ceruleo que é violeta...Viajei no título e me peguei com saudades do cheiro das tintas...esse azul poderia ter sido o ultramar...é o meu preferido.
    Beijos

    ahhh deixei um recado no Orkut.

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  12. Porque eu ainda acredito em finais felizes rs!!

    Uma hora, acontece.

    Seus textos são maravilhosossssssssssssssss Franck.

    Um abraço, meu querido!

    Mas é claro que o sol, vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei..
    (Ouvindo legião rs)

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  13. Ai porque eles não eram mais umcasal?E pior,o que aconteceu o que ele mais temia? Você deixou um ponto de interrogação e tantas interpretações possíveis neste final que curiosa e questionadora como sou, te escrevo aquela pergunta que não quer calar... Vai ter continuação este ótimo conto? Diz que sim,Franck!
    bjos meus

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  14. Amei seu Blog e seus contos. Dinâmicos e de uma naturalidade fantástica. O que me convenceu a seguir seu Blog também foi o Título "Sob zero grau do signo de libra". Você é libriano como eu?
    Bjusss
    Silvana

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  15. Franck, meu doce de amigo,

    Tudo muito real e intenso. É engraçado como a gente quer o para sempre, mas pra sempre é mt tempo e nem temos todo esse tempo.
    Acho que se amaram no tempo que tinha que ser, no infinito, enquanto durou.
    Amei essa história quase azul.
    Bjocas

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  16. "quando viram estavam naquele fim de tarde de domingo,tomando vinho, contando suas histórias, suas vidas'
    esse cotidiano é que nos faz tão reféns de situações que não sabemos por vezes como resolver, adorei o fim do texto

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  17. ...embora ele tenha acreditado
    o contrário,
    não era amor que rolava por aí!

    um beijo, querido!

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  18. Um conto maravilhoso, com um título à la Caio F., um final melancólico mas com gostinho de que valeu a pena. Adorei!

    Beijão

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  19. Tinha tudo para dar certo ao que parece... menos o tudo, o amor não é? Bjuu!

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  20. Gostei do
    Silêncio interrogativo.
    O rastro, o estalar do dedos!


    Muito bom Franck!

    abraçs

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  21. É a vida, sempre nos pregando uma peça....

    abço

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  22. Respondendo à pergunta que deixaste no meu blog. Faltei apenas cinco dias e foi esta burocracia toda. Estou a ver que tenho de mudar-me para o Brasil;)
    Bjs

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  23. Nem tudo tem um final feliz, e ela se rendeu a vida volúvel que costumamos ver nas rivistas sobre celebridades

    BeijooO*

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  24. o momento em que se percebe que "já não é mais"... é o pior, mas se sobrevive e que venham mais amores!

    bjO

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  25. Eu não costumo ser romântico.... mas dessa vez achei que tudo estava dando tão certo. Ainda acho que era tudo coisa da cabeça dele, acho que depois eles se resolveram debaixo do edredon... =p

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  26. Que belo texto, interessante como sempre gostei de histórias qe não têm um fim "tão romântico". No momento tô quase passando por uma... (ai ai) é a vida!!!!

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  27. Os finais mais bonitos tendem a ser aqueles mais tristes.

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  28. a música era esta "Empire of the sun - We are the people (cover)", adooro !

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  29. Ai, credo, estraga prazeres......, depois de uma narrativa tão envolvente terminar assim? Também, não podia ser diferente, tem alguém que não é um universo vazio neste mundo célebre?

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  30. Oi Frank... rs

    Você me faz feliz!!! Gosto muito de ti!!!

    Linda noite... dias de paz!
    Deixo beijo
    Com carinho
    Sil
    Sempre aqui

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  31. que lindo texto, assim como todos que você escreve !
    Fique com Deus, beijos.

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  32. ô meu amor!! juro que queria que fosse em minas ou qualquer outro lugar que fosse propício o nosso encontro. ao ler a pergunta descontextualizada do espaço físico sorri com a sinceridade de alguém que sente que desejam encontrá-la. ah, e o encontro é tão significativo e terno!!! encontro de amanheceres azuis. M.

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  33. Frank, e já disse aqui uma vez e certamente irei me repetir, você sabe mesmo como escrever esse tipo de conto.
    É algo impossível de não querer terminar de ler.

    Sempre por aqui.

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  34. quando dois mais dois já nao somam...
    beijo!

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  35. Franck,


    Passando corrida pra matar a Saudade , deixar BjO bem Grande e te desejar uma Tarde
    de Céu Azul , amigo querido demais ... :)



    Mil BjOs , volto mais tarde .
    Saudade também de te ler !

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  36. Impossível antes de sair ,não vir aqui dizer que sua atenção , carinho e amizade não tem preço , Franck.


    Se sou generosa , você é trocentas vezes mais .... :)

    Dizem que amar é tirar o melhor de nós e dos outros ...
    Então , posso te dizer , Franck ;
    Amo-Te , amigo!


    BjO , BjO , BjO ........

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  37. pqp, viu...
    bem hoje no meu "dia de fúria" leio mais uma história com final triste...

    que droga!

    Por que as pessoas não se entregam inteiras ao amor???

    Adoro estar aqui em seu blog!

    beijos em você e boa noite!

    E....amanhã: um novo dia! Ufa!!!

    Bia

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  38. Oi Frank...

    Sabe... acredita que sonhei com essa "História quase azul"... nossa... quando acordei fiquei sem saber se era sonho ou realidade... então me lembrei que foi aqui... Aff!!!

    Então... grata pela visita! Noite boa e linda pra ti também!

    E... navegar é preciso! Navegue também Frank! rs

    Deixo beijo
    Com carinho
    Sil
    Sempre aqui

    Desejo um amanhã repleto de paz!

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  39. A gente sente, sem saber como, que a intimidade, a cumplicidade acabou. Não são necessárias palavras... é tão estranho isso. A gente sabe... simplesmente...
    Meu queridíssimo amigo, ler teus texto sempre é delicioso.
    Beijokas.

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