sábado, 10 de julho de 2010

..."aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas"... (Arnaldo Antunes)






O Albatroz


O albatroz solitário fez ninho sobre o convés abandonado do navio
e pôs um ovo.
Na cidade um menino estudava trompete
a príncipio uma música descozida e qualquer
mas o albatroz, sensível, tomou para si este canto sem dono e inútil
e disse: será o canto do seu primeiro entardecer, filho
quando as aves estiram longamente suas asas
limpam suas penas e adormecem sem dessassosego.
Mas os dias se passaram e o ovo não vingava sobre o casco
progressivamente mais longe do céu.
O albatroz não procurou mais uma canção
inaugurando os momentos de seu pequenino como o natal e seus presentes
um a um.
O albatroz ficou em silêncio e as minhocas e insetos ressequiram-se
ou desapareceram do convés.
A Lua ia alta no céu quando a água umedeceu-lhes as patas
como num doce aviso ignorado.
O ninho se desfez ao nascer do dia.
O menino não tocou mais trompete
nem nenhum instrumento
cresceu.
Tornou-se um grande financista e dedicou-se à caça aos pombos.

(by, franck)

17 comentários:

  1. Muito, muito lindo!
    Amei de coração!
    Beijo

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  2. Que conto lindo, profundo e carregado de vontades!

    BeijooO*

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  3. O ALBATROZ poema de charles beudelaire / paris

    O Albatroz

    Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
    Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
    Que segue, companheiro indolente de viagem,
    O navio que sobre os abismos caminha.

    Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
    Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
    Deixa doridamente as grandes e alvas asas
    Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

    Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
    Ave tão bela, como está cômica e feia!
    Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
    Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

    O poeta é semelhante ao príncipe da altura
    Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
    Exilado no chão, em meio à corja impura,
    As asas de gigante impedem-no de andar.

    Tradução de Guilherme de Almeida

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  4. E tambem esse lindo de Castro Alves em Navio Negreiro..
    aprendi tanto sobre Albatroz nesse tempo que montei esses versos com teatro.
    Volto mais tarde aqui...

    Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
    Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
    Sacode as penas, Leviathan do espaço,
    Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.


    II


    Que importa do nauta o berço,
    Donde é filho, qual seu lar?
    Ama a cadência do verso
    Que lhe ensina o velho mar!
    Cantai! que a morte é divina!
    Resvala o brigue à bolina
    Como golfinho veloz.
    Presa ao mastro da mezena
    Saudosa bandeira acena
    As vagas que deixa após.

    Do Espanhol as cantilenas
    Requebradas de langor,
    Lembram as moças morenas,
    As andaluzas em flor!
    Da Itália o filho indolente
    Canta Veneza dormente,
    — Terra de amor e traição,
    Ou do golfo no regaço
    Relembra os versos de Tasso,
    Junto às lavas do vulcão!

    O Inglês — marinheiro frio,
    Que ao nascer no mar se achou,
    (Porque a Inglaterra é um navio,
    Que Deus na Mancha ancorou),
    Rijo entoa pátrias glórias,
    Lembrando, orgulhoso, histórias
    De Nelson e de Aboukir.. .
    O Francês — predestinado —
    Canta os louros do passado
    E os loureiros do porvir!

    Os marinheiros Helenos,
    Que a vaga jônia criou,
    Belos piratas morenos
    Do mar que Ulisses cortou,
    Homens que Fídias talhara,
    Vão cantando em noite clara
    Versos que Homero gemeu ...
    Nautas de todas as plagas,
    Vós sabeis achar nas vagas
    As melodias do céu! ...

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  5. Que bonito esse texto...
    mas fiquei com pena do pobre albatroz solitário...
    bom fim de semana

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  6. será o destino cruel tanto com o Albatroz como com o menino que tocava trompete

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  7. nossa... MUITO LINDO. mesmo!!
    bom final de semana, beijos.

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  8. Caro Franck,

    com uma grande carga de tristeza não deixa de ser um brilhante conto. A realidade é que nem sempre os nossos sonhos e desejos se realizam!

    Beijinhos,
    Ana Martins
    Ave Sem Asas

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  9. Puxa, que conto divino. Fá pra fazer analogia a muitas coisas que transcorrem nas nossas vidas e nos põem em xeque de que caminho tomar.
    Adorei!
    Beijos pra ti e bom domingo!

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  10. Uma linda analogia á vida...amei!!!!!!
    bjosssssssss

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  11. Triste.
    Porém, os albatrozes são aves de grande envergadura, são fortes, seus voos sublimes e longas viagens podem fazer.
    O menino que virou homem... não sei... não sei se ele pôde alçar alturas sublimes.

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  12. eu acho de dever ser por esses dois amor e ódio serem a mesma cousa

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  13. Olá Franck,
    Belo texto... triste, mas com gosto de mudança, fiquei imaginando se o menino continuaria pra sempre caçando os pombos... ou qual seria seu novo movimento, sua nova paixão artística... e é claro... os novos voôs (com ou sem acento) do albatroz que será que continuaria solitário? Enfim... me fez pensar nas voltas que o mundo dá e em como temos a possibilidade de mudar... Às vezes pra onde queremos ou acreditamos e às vezes pra onde mundo leva mesmo...
    Queria ter a delizadeza de escrever assim!
    Abraços e já estou seguindo!
    Tenha um ótimo domingo!

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  14. Que triste este conto, tudo bem que o garoto não precisava necessariamente se tornar um músico, mas precisava se tornar um caçador de pombos? Um músico seria tão mais belo e inocente! Mas assim é a vida, por hora somos o garoto, por hora o albatroz. Parabéns, nos faz pensar. Obrigado pela visita e comentário. Abraços e uma ótima semana.

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  15. Amei o pensamento, estou mascando meus chicletes, lendo seus poemas e ouvindo um som....Desejo-lhe inspirações sempre, téns um belissímo dom!!Um otimo domingo p vc

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  16. Ooi, brigada pelo coment :)
    realmente sinistro o post, rsrs
    quer um template como o do meu blog ?
    visite esse site, e escolha um : http://www.pyzam.com/bloggertemplates
    mas seria interessante que não fosse da praia, pq senão vão ficar iguais os blogs, rsrs
    uma boa semana pra ti!

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